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Condicionamento de Grandes Primatas: A Voz é o Segredo!

 

 SANTUÁRIO DE SOROCABA

Já está mais do que provado que os chimpanzés e os outros grandes primatas são seres dotados de inteligência e sentimento. Mesmo que certas correntes acadêmicas ainda neguem, contra-argumentando e dizendo que tais comportamentos são instintivos, por exemplo, os fatos estão aí, e contra fatos, não há argumentos.

E em função dessas semelhanças e proximidades conosco que devemos atentar para certas atitudes que insistem em classificar esses grandes primatas como meros animais irracionais. Em alguns zoológicos, por exemplo, são usadas técnicas denominadas de condicionamento operante, através das quais os animais são submetidos à reforços positivos (recompensa agradável) quando respondem a determinado comando. Ao cumprirem determinada tarefa, faz-se uma ponte entre a tarefa e a recompensa, com um aparelho do tipo "clicker" que emite um estalido quando acionado pelo treinador.

Confesso que não sou nenhum expert em condicionamento, porém, não posso deixar passar em branco o que foi veiculado em um programa de tv. Minha crítica não é necessariamente a esse feitio, mas à maneira como ele é feito com grandes primatas, afinal, sendo seres inteligentes, dotados de capacidade de comunicação e entendimento, não há razão para que não se use um aparelho muito mais eficiente e simples: nossa voz.

Por que opta-se por estalidos irritantes, que funcionam como uma verdadeira tortura? Alguém de nós, por acaso, se submetido a esse treinamento, gostaria de ser condicionados por estalidos ao invés de ter alguém nos orientando através de uma conversa? Por que não usar nossa fala?

Resumindo o que quero argumentar aqui: como você se comunica com uma pessoa muda (que vale lembrar, é um grande primata também)? Se ela entende nossa voz, mas não pode se comunicar oralmente, devemos trata-la à base de estalidos de um "cliquer"? Mudinho, abrir-boca. Click! Mudinho, virar-costas. Click. Mudinho, pegar-bolsa. Click. Claro que não! E por que fazem isso com os outros grandes primatas? Por que não conversam com eles então? Sim, eles nos compreendem (e muito bem!) e respondem nossas colocações da maneira que acharem melhor.

Se quisermos até aprofundar nossos argumentos, podemos lembrar da gorila Koko, o bonobo Kanzi e da finada chimpanzé Washoe, os quais derrubaram as barreiras do pré-conceito científico e demonstraram capacidade de aprendizado em ensinamento de linguagem de sinais e/ou figurativas de maneira inter e intra-específica. São como nós, sentimentais, cognitivos.

Quando perguntados o que querem, por exemplo, alguns apontam, outros olham para onde querem ir, outros nos chamam com gritos e gestos. Billy, por exemplo, quando pedimos que nos devolva uma garrafa vazia, basta conversar com ele e pedi-la que ele nos devolve; não precisamos de mímicas, gestos, muito menos de barulhos de click. Lucke não apenas nos devolve, como coloca a tampa nessa garrafa antes de nos entregar. São apenas dois simples exemplos de que os grandes primatas não são meros animais irracionais como muitos ainda insistem em acreditar.

O condicionamento operante de animais é algo vendido mundialmente, principalmente para zoológicos que treinam várias espécies de animais para obedecerem a comandos por meio de recompensas. Mas para os grandes primatas esse treinamento é um desrespeito e uma afronta à inteligência e a toda representatividade de nossos parentes mais próximos. Mais que animais (que todos nós somos!), são seres inteligentes, munidos de sentimentos, não sendo à toa 99,4% humanos e que, portanto, não merecem ser submetidos a padrões descabíveis como esses.

Luiz Fernando Leal Padulla
Biólogo
Santuário GAP/Sorocaba


SANTUÁRIO DE SOROCABA