Curiosidades - Informações
O afeto
SANTUÁRIO DE SOROCABA
Alex está deitado, com as pernas cruzadas para cima, Carol está encima dele, pressionando sua boca contra a dele. A cena se prolonga por mais de um minuto. É uma demonstração de afeto entre ambos, acontece com frequência durante o dia. Não existe erotismo nesta ação nem na relação deles. Alex nunca copula com Carol. Ele se masturba com freqüência, especialmente se uma mulher está por perto. Vinte anos de sua vida em um circo criou esse trauma, porém não destruiu a manifestação de afeto a sua parceira de todos os dias, com seu beijo prolongado.
Luke acompanha a movimentação do Santuário desde seu recinto. E de manhã, estamos juntos com ele, enquanto olhamos uma revista, o observamos. Cada vez que aparece alguém que ele conhece, Luke emite um som diferente, para o Jair, o encarregado de manutenção, é um som, se é o Luis, o biólogo aumenta o som, ele tem mais intimidade com ele, que de vez em quando entra em seu recinto. Se for alguém estranho, faz gestos e emite outros sons, pedindo que as pessoas vão embora. Luke passa o dia todo manifestando o seu afeto e seus sentimentos pelos humanos ao seu redor. Se aparece alguém que ele não vê faz muito tempo, emite sons e faz o gesto do abraço com ele mesmo, que indica que ele deseja que a pessoa se aproxime.
No fim da tarde, quando estou indo embora, passo pelo recinto do Vitor e deixo um agrado. Estou com roupa social, ele deseja vê-la, tocá-la, eu faço um afago nele, ele me devolve com um sorriso e com seu típico "OH ... OH ..." de carinho.
De manhã, quando entro no recinto do grupo de Guga, Carol vem correndo e pula em minhas costas, como fazia quando era bebê, ela sabe que já não posso carregá-la, porém, é o gesto de afeto dela, me dá um beijo e sai correndo para brincar com seus amigos. Sento no chão recinto, Emílio vem por trás e me abraça, é seu gesto de afeto. Faço uma cócega nele, e ele emite os sons de alegria.
Guga volta ao seu recinto, depois de uma manhã na área de cerca elétrica, Carolina o recebe com um abraço. Carlos volta ao recinto, Dolores se aproxima por trás dele, beija suas costas e emite sons de alegria. Parece que ficaram meses sem se ver, porém foram duas ou três horas. Carlos volta para o recinto de Noel, com quem fica às vezes por alguns dias, ambos se abraçam.
Uma matéria recém publicada na Folha On Line, mencionando um trabalho de um Centro de Pesquisa de Antropologia Evolutiva e Paleontologia da Universidade Britânica de Liverpool, afirma que "o estresse dos chimpanzés vítimas de agressão foi reduzido quando outro primata lhe oferecia um abraço ou um beijo", porém - e aqui está a apreciação errada do trabalho - "os beijos e abraços só são vistos após um conflito".
As situações aqui relatadas provam que os chimpanzés reagem com abraços e beijos para demonstrar seu afeto por um semelhante ou por um amigo humano, e não somente para confortar alguém após um conflito. Os chimpanzés - segundo nossa experiência - têm sangue latino, eles precisam estar se abraçando, se beijando, tocando-se, constantemente. A cada minuto, eles estão demonstrando os seus sentimentos a todos que os rodeiam, o que os convertem nos seres mais expressivos da humanidade.
Dr. Pedro A. Ynterian
Projeto GAP Internacional
SANTUARIO DE SOROCABA





