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Assistindo DVD

 

SANTUÁRIO DE SOROCABA

Recentemente introduzimos no Santuário uma nova maneira de entretenimento para os chimpanzés através da exibição de filmes, documentários e desenhos animados em DVD. Para tanto, usamos um DVD portátil, movido à bateria recarregável, o que facilita seu uso em qualquer lugar dos recintos. Estamos no início desse tipo de enriquecimento, mas nossas observações preliminares surpreenderam.

O primeiro a assistir foi Billy. Para ele coloquei um DVD sobre o documentário do pentacampeonato brasileiro do São Paulo F.C., o qual possui imagens de jogos, entrevistas e músicas diversas, apesar deste que lhes escreve ser são-paulino, confesso que não quis influenciar a preferência de Billy, apenas utilizei desse recurso que estava ao meu alcance. Ao todo, foram mais de 2 horas de filme, tempo este em que Billy permaneceu sentado à sua mesa, compenetrado em cada cena. Seu único movimento foi inverter o lado em que sentava, assim como nós fazemos depois que nosso corpo se cansa de ficar em uma mesma posição.

Dias depois exibi um documentário do "HELP Congo" para Alex e Carol. Por se tratar de um filme com imagens de chimpanzés, a atenção também foi total, principalmente por parte de Carol, que tomou a frente de Alex e de lá não saiu até o final do vídeo. Esse mesmo vídeo foi apresentado para Bongo, Mônica, Martin, Vitor e Billy.

O curioso nesse caso foi que todos reagiram de maneira assustada quando uma das cenas mostrava a retirada de um filhote de sua mãe para que os responsáveis pesassem e avaliassem sua saúde. O filhote, sem saber o que acontecia, gritava. Nesse instante, Carol, que normalmente é muito quieta, teve uma atitude que eu nunca havia visto, arrepiando-se toda e gritando, como se estivesse alertando para algo errado. Mônica também se arrepiou, mas emitiu gritos mais baixos sem tirar os olhos do vídeo, com olhar de tristeza e de igual preocupação. Martin e Alex, que não prestavam tanta atenção, no momento desses gritos do filhote se atentaram à filmagem. Billy, no entanto, assistiu calmamente. Não diria que ele não reagiu ao fato, mas pode ser que ele saiba discernir o que é real do que é apenas uma filmagem.

Outro exemplo interessante foi o de Mônica, que não tem muito apreço por mulheres, e se arrepiava toda vez que aparecia uma mulher na filmagem, mostrando sua irritação. Em outra cena de gritaria e pânico entre um grupo de chimpanzés, simulei estar com medo (vocalizando - ou pelo menos tentando - como eles fazem) e de imediato, Bongo, que estava ao lado assistindo, estendeu sua mão para me amparar. Vitor, assim como uma criança hiper-ativa, não conseguia simplesmente assistir ao vídeo, tendo que segurar minha mão para fazer grooming por exemplo, mas com "um olho no peixe e outro no gato."

Esses comportamentos são muito similares aos nossos, seja em nossa fase de criança ou até mesmo adulta. Quem, enquanto criança, não se assustava com gritos em um filme de suspense? Ou então, com bruxas e/ou monstros? Nesse caso, os "monstros" seriam esses que retiram o filhote da mãe, causando pânico.

Lembro-me até hoje do medo que tinha daquele filme de "Branca de Neve e os sete anões" quando a bruxa aparecia. Hoje sei que nada mais era do que uma atriz perfeitamente maquiada, mas qual criança não tinha medo?  Não procurávamos nos esconder ou a ajuda de alguém que estivesse ao nosso lado? Não é assim até hoje quando nos deparamos com uma situação de medo?

Se hoje sabemos discernir o que é real do que é apenas uma gravação, por que eles não saberiam? Se existem crianças hiper-ativas, por que com eles seria diferente? Se alguns conseguem ficar pacientemente sentados por horas em frente a uma tv assistindo a um filme, sem nada que os obrigue, apenas por vontade própria, por que se reluta em admitir que são como nós? ou nós como eles?

Não é uma questão de dar-lhes características humanas, mas sim, de admitirmos que são dotados dessas características.

Msc. Luiz Fernando Leal Padulla
Biólogo

SANTUARIO DE SOROCABA