Curiosidades - Informações
Mãos no caminho da evolução
A mais recente notícia sobre Ardi – nossa “tataravó” de 4,4 milhões de anos – remeteu à questão das mãos e, conseqüentemente, ao bipedalismo. A pesquisa foi capa da revista Science, e teve repercussão mundial ao formular uma criatura a partir de 125 fragmentos fossilizados que compunham partes do crânio, maxilar com alguns dentes, fragmentos dos braços, mãos, bacia, pernas e pés. De acordo com os cientistas, o traço mais impressionante de Ardi são suas mãos, as quais não são de um macaco, mas assustadoramente humanas. E tal novidade fez com que se admitisse que nossas mãos não são exclusividade humana, muito menos moderna, pois são muito antigas. Como afirmou o antropólogo C. Owen Lovejoy, “é provável que a mão humana seja mais primitiva que a dos chimpanzés”.
A chegada de Ardi muda o conceito do elo perdido entre homem e demais primatas: antes acreditava-se que o elo fosse um chimpanzé mais inteligente, hoje, no entanto, sabe-se que o elo entre o homem e os chimpanzés era muito mais humano. Tendo mãos de humanos e pés de chimpanzés, Ardi não é o elo perdido, mas é um membro da linhagem humana.
É interessante – e até mesmo surreal – que esse tipo de pesquisa crie um hominídeo a partir de pedaços fragmentados, mas o que tudo isso quer dizer na práticaω Nos mostra o que defendemos: os chimpanzés, ao contrário do que se pensava, são muito mais humanos; há maior similaridade e parentesco próximo entre nós, humanos contemporâneos, e os grandes primatas, humanos primitivos.
As mãos de um chimpanzé são muito parecidas com as nossas – assim como outras partes da anatomia e de sua fisiologia. Nos primeiros anos de vida, as mãos são ainda mais parecidas, pois são íntegras, sem os calos que surgem posteriormente pelo efeito do apoio das falanges no chão para a locomoção – ao contrário de nós, os chimpanzés se deslocam na maior parte do tempo apoiando as mãos no chão. As mãos de Sofia, prestes a completar 5 meses, são muito semelhantes à de uma pessoa. Com o tempo, no entanto, as mãos vão sendo mais utilizadas e passam a desenvolver os calos, o que é extremamente útil a eles, mas por outro lado, faz com que percam um pouco a sensibilidade para movimentos e posicionamento das mãos, o que para nós, é fundamental – não fosse assim, não teríamos habilidade de digitar um simples texto computador, por exemplo.
E é aí que entra o bipedalismo como um dos agentes fundamentais para a diversificação dos primatas. Nós, bípedes, temos maior domínio e sensibilidade de nossos movimentos manuais. Mas isso não veio de graça. Nossa postura, que permitiu a liberdade dos membros superiores, nos cobrou com dores nas costas em função de um esqueleto ainda em processo de adaptação a essa forma de caminhar. Tudo na vida tem seu custo. Nós resolvemos pagar essa conta, já os outros primatas, continuaram sua locomoção de maneira a não forçar às costas.
Assim como Ardi nos faz repensar sobre nossa ancestralidade, vale o questionamento: será que somos realmente os mais evoluídosω Quem garante que o bipedalismo é, de fato, uma característica realmente vantajosaω Sob a óptica do homem a resposta parece óbvia, mas se olharmos com olhos de primatas podemos nos surpreender...
MSc. Luiz Fernando Leal Padulla
Biólogo
A chegada de Ardi muda o conceito do elo perdido entre homem e demais primatas: antes acreditava-se que o elo fosse um chimpanzé mais inteligente, hoje, no entanto, sabe-se que o elo entre o homem e os chimpanzés era muito mais humano. Tendo mãos de humanos e pés de chimpanzés, Ardi não é o elo perdido, mas é um membro da linhagem humana.
É interessante – e até mesmo surreal – que esse tipo de pesquisa crie um hominídeo a partir de pedaços fragmentados, mas o que tudo isso quer dizer na práticaω Nos mostra o que defendemos: os chimpanzés, ao contrário do que se pensava, são muito mais humanos; há maior similaridade e parentesco próximo entre nós, humanos contemporâneos, e os grandes primatas, humanos primitivos.
As mãos de um chimpanzé são muito parecidas com as nossas – assim como outras partes da anatomia e de sua fisiologia. Nos primeiros anos de vida, as mãos são ainda mais parecidas, pois são íntegras, sem os calos que surgem posteriormente pelo efeito do apoio das falanges no chão para a locomoção – ao contrário de nós, os chimpanzés se deslocam na maior parte do tempo apoiando as mãos no chão. As mãos de Sofia, prestes a completar 5 meses, são muito semelhantes à de uma pessoa. Com o tempo, no entanto, as mãos vão sendo mais utilizadas e passam a desenvolver os calos, o que é extremamente útil a eles, mas por outro lado, faz com que percam um pouco a sensibilidade para movimentos e posicionamento das mãos, o que para nós, é fundamental – não fosse assim, não teríamos habilidade de digitar um simples texto computador, por exemplo.
E é aí que entra o bipedalismo como um dos agentes fundamentais para a diversificação dos primatas. Nós, bípedes, temos maior domínio e sensibilidade de nossos movimentos manuais. Mas isso não veio de graça. Nossa postura, que permitiu a liberdade dos membros superiores, nos cobrou com dores nas costas em função de um esqueleto ainda em processo de adaptação a essa forma de caminhar. Tudo na vida tem seu custo. Nós resolvemos pagar essa conta, já os outros primatas, continuaram sua locomoção de maneira a não forçar às costas.
Assim como Ardi nos faz repensar sobre nossa ancestralidade, vale o questionamento: será que somos realmente os mais evoluídosω Quem garante que o bipedalismo é, de fato, uma característica realmente vantajosaω Sob a óptica do homem a resposta parece óbvia, mas se olharmos com olhos de primatas podemos nos surpreender...
MSc. Luiz Fernando Leal Padulla
Biólogo











