Projeto GAP

Curiosidades - Informações

Uma mãe aos dois anos e meio

Sara e Sofia
 
Sara e Sofia
SANTUÁRIO DE SOROCABA

Após o êxito alcançado de aproximar Samantha com Jimmy, ela deve voltar a sua rotina de mãe, que inclui cuidar de sua filha Sofia, de dois anos e meio, e preparar-se para receber de volta as suas outras duas filhas, das quais estamos cuidando – Sara, de 1 ano e meio, e Suzi, de 7 meses.

Sofia já morava com a mãe Samantha há seis meses. Há períodos que ela ficava alguns dias com Sara, quando Samantha voltava para seu grupo, comandado por Guga, com quem ela é muito ligada.

Após duas semanas com Jimmy, Samantha voltou para seu recinto e Sofia voltou a viver com ela. Sara se sentiu sozinha e fez o que sua mãe fez várias vezes: escapou do recinto de cerca elétrica e foi em busca da irmã maior. A encontramos vagando pelo santuário procurando Sofia. Aí decidimos que era o momento de voltar para sua mãe definitivamente, o que lhe permitirá a vida em família e em segurança.

Há alguns meses atrás já tínhamos tentado aproximar Sara da mãe, mas ela tem uma personalidade diferente da irmã, e não se dá fácil com qualquer um, muito menos com um chimpanzé adulto “o qual só viu e ouviu de certa distância”.

Nosso medo é que Sofia, que atua como mãe de Sara para todos os efeitos, brigue com a mãe quando Samantha tentar pegá-la. Durante dois dias nos dedicamos a monitorar esta nova aproximação. Eu fiquei um bom tempo com as três, explicando a Samantha que fosse devagar, e não tentasse forçar a aproximação. Na primeira noite, Sofia fez uma tenda a céu aberto com Sara, que não queria entrar no dormitório, para fazer-lhe companhia.

Já tínhamos deixado instruções para, caso a situação se complicasse, passassem Samantha para dormir com Jimmy, que fica no dormitório do lado, para que Sofia e Sara dormissem tranqüilas no dormitório. A tratadora fez isso e no dia seguinte as juntamos de novo. À medida que passavam as horas, Sara se descontraia mais e deixava que a mãe se aproximasse mais um pouco. Samantha já estava ficando nervosa por não poder pegar a sua filha no colo. Quando isso acontecia, inteligentemente Sofia a distraía brincando com ela.

Pelas janelas dos recintos ao lado, todo o grupo de Guga acompanhava a aproximação. Sofia levava Sara para as janelas para familiarizá-la com seu pai, Guga, e seus tios no grupo. Sara observava a interação da irmã com eles, porém tinha medo de tantos chimpanzés “gigantes” que estavam do outro lado.

O recinto em que elas estão tem mais ou menos 3 mil metros quadrados. Sara está fazendo um tremendo exercício e passou a tomar três mamadeiras diárias, no lugar das três habituais.

Na segunda noite, elas não queriam entrar no dormitório com a mãe, e ficavam em um túnel externo. O temporal era iminente. A tratadora passou Samantha para o recinto de Jimmy, e entrou para trazê-las para dentro do dormitório. Porém, ela não contou com as botas que, inadvertidamente, usava, o que gerou em Jimmy uma tremenda excitação, e andava em dois pés atrás de Samantha, que não sabendo o que sucedia, começou a gritar. Ela conseguiu tirar Samantha do dormitório de Jimmy e juntá-la com as filhas, que estavam assustadas com o escândalo que armou. Isso, no fim facilitou que as três dormissem juntas.

No terceiro dia eu me concentrei, entrando com as três, para que Samantha fizesse “grooming” em mim, tendo Sara junto, que tinha curiosidade pela atitude da mãe e a ficava observando de perto, mas sem se deixar pegar. Um grande avanço foi na hora da mamadeira: Samantha fica no meio e as duas, uma de cada lado, bebem sua mamadeira avidamente.

Nós calculamos que a situação já estava estabilizada, e que em poucos dias mais Sara se entregará aos braços de sua mãe, como Sofia o faz, e a integração da mãe com suas filhas estará realizada.

O interessante é observar que Sofia, com dois anos e meio, tem um conceito de proteção e cuidado com a irmã menor muito mais avançado que poderia ter uma bebê humana. Uma criança humana dessa idade nunca assumiria o papel de mãe como Sofia o tem feito. Uma prova a mais dos profundos sentimentos que unem a família chimpanzé, e a inteligência que um bebê demonstra ao assumir um papel necessário em uma situação inusitada. Podemos então deduzir o profundo trauma que causamos quando destruímos os laços familiares, separando pais de filhos, irmãos entre si, uma prática comum até hoje por aqueles que só pensam no benefício pessoal que obtém quando destroem uma família de primatas.


Dr. Pedro A Ynterian
Presidente, Projeto GAP Internacional